§ Ensaio · E·19

Reserva técnica: o preço de depender de comissão de fornecedor

A comissão de fornecedor sustenta a receita de muitos escritórios e esconde um honorário que não paga o próprio trabalho. Este ensaio mostra o risco desse modelo e o caminho para sair dele sem quebrar.

7 min de leitura27 de julho de 2026Somus

Reserva técnica: o preço de depender de comissão de fornecedor

A reserva técnica funciona assim: o escritório especifica ou indica um fornecedor, o cliente compra, e o fornecedor paga uma comissão ao escritório sobre o valor da compra. Móveis, marcenaria, iluminação, revestimentos, cortinas, automação. O percentual varia, em geral entre 5% e 20%. Em boa parte dos escritórios de arquitetura e interiores do Brasil, esse dinheiro não é um extra bem-vindo. É uma parte central da receita, às vezes a maior.

O caminho até essa dependência é conhecido. O cliente acha o honorário caro. O escritório baixa o preço para fechar o contrato. A conta do projeto não fecha, e a comissão entra para cobrir a diferença. Com o tempo, o desconto vira padrão e a reserva técnica vira estrutura. O escritório passa a cobrar pouco pelo que é o seu trabalho, o projeto, e a ganhar dinheiro como intermediário de compras. Muitos nem percebem a troca, porque ela acontece aos poucos.

O primeiro problema é de precificação. Se o honorário não paga o custo de produzir o projeto, o preço está errado. Já mostramos essa conta nos ensaios sobre precificação por margem e sobre o custo real da hora. A reserva técnica esconde o erro: o resultado do mês fecha, então ninguém revisa o preço. O escritório opera anos com honorário abaixo do custo sem saber, porque a comissão tapa o buraco. No dia em que a comissão falha, o buraco aparece inteiro de uma vez.

O segundo problema é de controle. Honorário é uma receita que o escritório contrata, fatura e cobra. Comissão é uma receita que depende de decisões dos outros. Depende de o cliente comprar, de comprar naquele fornecedor, de comprar o volume esperado, de a obra andar e de o fornecedor pagar certo. Nenhuma dessas variáveis está no contrato do escritório com o cliente. Uma receita que não se controla não sustenta custo fixo, não entra com segurança no fluxo de caixa projetado e não serve de base para contratar equipe.

O terceiro problema é o incentivo. A comissão premia a especificação do fornecedor que paga mais, não do que resolve melhor o projeto. Mesmo o profissional mais honesto passa a decidir sob conflito de interesse. E o cliente, cedo ou tarde, faz a conta. Quando descobre que a indicação tinha comissão embutida e que ninguém contou, a confiança acaba. A relação que sustentava indicações futuras morre junto.

Existe ainda a camada institucional. O Código de Ética do CAU determina que o arquiteto informe ao cliente qualquer vantagem recebida de terceiros em função do projeto. O IAB repudia formalmente a prática da reserva técnica. Receber comissão sem o conhecimento do cliente, portanto, não é zona cinzenta. É infração ética, com processo e sanção previstos. O risco não é só de margem. É de registro profissional e de reputação.

Antes de decidir qualquer coisa, faça um teste simples. Pegue o resultado dos últimos doze meses e separe a receita em duas colunas: honorários e comissões. Depois refaça o mês típico do escritório sem a coluna das comissões. Se a operação continua de pé, a reserva técnica é uma escolha comercial, e o escritório pode mantê-la ou não. Se a operação vai para o vermelho, o escritório não tem um negócio de projeto com uma receita extra. Tem um negócio de intermediação que entrega projeto, e está exposto a uma receita que não controla.

Uma régua prática para ler o resultado do teste. Comissões abaixo de 10% da receita: dependência baixa, situação administrável. Entre 10% e 30%: atenção, o honorário provavelmente está subsidiado. Acima de 30%: o modelo de receita do escritório é a comissão, e o projeto virou produto de entrada. Cada faixa pede uma velocidade diferente de transição.

A transição tem dois movimentos, e eles funcionam juntos. O primeiro é reprecificar o honorário pelo custo real, projeto a projeto, nos contratos novos. Ninguém precisa dobrar o preço de uma vez. Precisa parar de vender abaixo do custo e recompor a margem ao longo dos próximos contratos, com a conta feita. O honorário deve pagar o projeto. Essa é a base.

O segundo movimento é transformar a curadoria de compras em serviço declarado. O trabalho que o escritório faz nessa etapa tem valor real: pesquisar fornecedores, negociar condições, conferir pedidos, acompanhar entregas, resolver problemas. Isso é serviço, e serviço se cobra do cliente, com preço na proposta. Gestão de compras como escopo contratado, com remuneração transparente. Se houver desconto ou benefício de fornecedor, ele é declarado e tratado conforme o combinado: repassado ao cliente ou compensado no serviço. O escritório ganha pelo trabalho que faz, não pela venda que intermedia.

Um exemplo de como a conta muda. Num projeto residencial com R$ 300 mil de compras, uma reserva técnica média de 10% renderia R$ 30 mil ao escritório, sem o cliente saber. No modelo declarado, o escritório cobra o honorário correto pelo projeto e um serviço de gestão de compras, digamos 8% sobre o valor comprado, R$ 24 mil, escrito na proposta. O cliente sabe o que paga e por quê. O escritório recebe pelo trabalho e negocia com o fornecedor pensando só no projeto. E ganha um argumento comercial: negociando de forma independente, o desconto obtido junto ao fornecedor costuma cobrir boa parte do serviço.

O modelo escolhido, qualquer que seja, precisa estar no contrato. Uma cláusula dizendo como o escritório se remunera, o que o honorário cobre, se existe serviço de compras e quanto custa, e qual é a política de relacionamento com fornecedores. Cliente informado não gera crise depois. A maior parte do desgaste em torno da reserva técnica vem do silêncio, não da comissão em si.

Este ensaio não é um julgamento de quem usa reserva técnica. É um alerta sobre o que ela faz com o modelo de receita quando vira dependência. O escritório que se sustenta com honorário tem receita previsível, especificação limpa e uma relação com o cliente que aguenta qualquer conversa. O escritório que depende de comissão tem um preço errado escondido e um risco que cresce em silêncio. A pergunta certa não é se a reserva técnica é aceitável. É se o seu escritório fica de pé sem ela.

Da análise à implementação

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