§ Ensaio · E·37

Quanto custa dar 10% de desconto

Desconto não sai da receita. Sai da margem. Um desconto de 10% num projeto com margem de 25% consome 40% do lucro daquele trabalho, e para compensar o escritório precisa vender muito mais do que imagina. Este ensaio faz a conta, mostra os descontos disfarçados que ninguém registra e propõe alternativas que preservam o cliente sem sacrificar o resultado.

7 min de leitura7 de setembro de 2026Somus

Quanto custa dar 10% de desconto

A cena é comum. A proposta está na mesa, o cliente gostou do escritório, mas diz que o valor passou um pouco do que esperava. O sócio, para não perder o trabalho, oferece 10% de desconto. O cliente aceita, o contrato é assinado, e todo mundo sai com a sensação de que perdeu pouco. Afinal, 10% é pouco. O problema é que esse raciocínio olha para o preço, e o desconto não sai do preço. Ele sai da margem, e a margem é bem menor do que o preço.

A conta é simples e vale fazer com números redondos. Um projeto de 100 mil reais, com custo de produção de 75 mil, deixa 25 mil de margem, ou seja, 25%. Se o escritório dá 10% de desconto, o preço cai para 90 mil. O custo de produzir o projeto continua sendo 75 mil, porque o cliente não pediu menos horas, pediu preço menor. A margem cai para 15 mil. O desconto de 10% no preço virou uma redução de 40% no lucro daquele trabalho. Se a margem do escritório fosse de 15%, o mesmo desconto de 10% teria consumido dois terços do resultado. E com margem de 10%, o desconto zera o lucro. O escritório trabalha o projeto inteiro para não ganhar nada.

A segunda parte da conta é a que mais surpreende: quanto a mais o escritório precisa vender para compensar o desconto. Com margem de 25%, cada 10% de desconto exige um aumento de cerca de 67% no volume de trabalho para manter o mesmo lucro em reais. Com margem de 20%, o aumento necessário é de 100%: o escritório precisa fazer o dobro. Com margem de 30%, ainda precisa de 50% a mais. Em todos os cenários realistas de um escritório de arquitetura, dar 10% de desconto e manter o resultado exige ampliar a carteira em metade ou mais. Nenhum escritório dá desconto pensando que vai precisar produzir 50% a mais para ficar no mesmo lugar, mas é exatamente isso que a conta diz.

Esses números tratam do desconto visível, o que aparece na proposta. Existem pelo menos três descontos disfarçados que não passam por nenhuma negociação e custam tanto quanto. O primeiro é o escopo extra sem cobrança: a revisão a mais, o detalhamento de um ambiente que não estava previsto, a visita à loja para ajudar a escolher acabamento. Cada um deles é hora de equipe sem receita correspondente. O segundo é o prazo de pagamento: aceitar receber em dez parcelas o que seria pago em quatro significa financiar o cliente, e o custo desse financiamento vem do caixa do escritório. O terceiro é a visita técnica não cobrada, que costuma nascer como cortesia e vira hábito. Somados, esses três descontos podem passar dos 10% da proposta, e nenhum deles é registrado como desconto.

Isso não significa que desconto nunca faz sentido. Há situações em que ele é uma decisão legítima. Um cliente estratégico, que abre uma porta para um segmento novo ou que traz um projeto com valor de portfólio, pode justificar preço menor. Um período de ociosidade real, em que a equipe está paga e sem projeto, também: nesse caso, qualquer margem positiva é melhor do que hora parada. A diferença entre o desconto que faz sentido e o que destrói margem não está no percentual. Está em ser uma decisão registrada, com motivo declarado, e não um reflexo diante da primeira objeção.

O registro é o que separa exceção de hábito. Uma regra simples funciona: todo desconto acima de um percentual definido, digamos 5%, precisa de motivo escrito e aprovação do sócio responsável, e entra numa lista que é revisada no fechamento do mês. Quando a lista é olhada, os padrões aparecem. O escritório descobre que dá desconto em 70% das propostas, ou que sempre cede para o mesmo tipo de cliente, ou que um dos sócios cede muito mais do que o outro. Esses padrões não aparecem enquanto cada desconto é tratado como caso isolado.

Antes de reduzir o preço, existem três alternativas que resolvem a maioria das objeções sem tocar na margem. A primeira é reduzir o escopo: se o cliente quer pagar menos, ele pode receber menos. Tirar uma etapa, reduzir o número de ambientes detalhados ou limitar o número de revisões mantém a relação entre preço e trabalho. A segunda é mudar a forma de pagamento: uma entrada maior em troca de um valor total um pouco menor pode compensar, porque o dinheiro antecipado tem valor para o caixa. A terceira é transformar parte do escopo em etapa opcional: o cliente fecha o essencial agora e decide o restante depois, com preço já definido. Nas três, o escritório cede algo. A diferença é que cede trabalho ou prazo, não margem.

Falta uma regra de alçada. Em escritórios pequenos, o próprio sócio negocia e decide, e o risco é a decisão no calor da conversa. Em escritórios com equipe comercial ou com mais de um sócio negociando, o risco é cada um ter sua régua. A regra que resolve os dois casos é uma tabela curta: até 5%, quem negocia decide, com registro. De 5% a 10%, precisa de aprovação do sócio financeiro. Acima de 10%, só com justificativa estratégica e decisão em conjunto. É uma regra que cabe numa linha e evita que a margem do ano seja definida em conversas de cinco minutos.

No fim, o que muda não é a proibição do desconto. É a consciência do que ele custa. Um escritório que sabe que 10% de desconto consome 40% do lucro do projeto negocia de outro jeito. Ele oferece escopo, oferece prazo, oferece etapa opcional, e guarda o desconto de preço para os casos em que ele é uma decisão, não uma reação. A conta não é difícil. O que falta, na maioria dos escritórios, é fazê-la antes de responder ao cliente, e não no fechamento do ano, quando o resultado já veio menor e ninguém sabe por quê.

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