§ Ensaio · E·34
Orçamento do ano: como planejar 2027 antes que dezembro chegue
A maioria dos escritórios entra em janeiro sem meta, só com a expectativa de faturar mais que no ano anterior. Orçamento anual não é previsão do futuro, é decisão tomada com antecedência. E as decisões que mudam o próximo ano precisam ser tomadas agora.
7 min de leitura31 de agosto de 2026Somus

Em setembro, quase nenhum escritório está pensando no ano que vem. Tem projeto atrasado, cliente cobrando resposta, equipe apertada e a sensação de que falar de 2027 é luxo de quem não tem obra na rua. É compreensível, e é um erro caro. As decisões que definem como será o próximo ano não produzem efeito no mês seguinte. Elas levam meses para chegar ao caixa. Quem começa a planejar em janeiro não está planejando o ano: está planejando, na prática, o segundo semestre.
Vale olhar os prazos reais de cada decisão. Um reajuste de tabela leva de dois a três meses até aparecer no recebimento, porque as propostas que estão em negociação hoje foram feitas no preço antigo e os contratos assinados este ano seguem no valor deles. Uma contratação leva de um a três meses entre abrir a vaga e ter a pessoa produzindo sozinha, e ainda custa antes de render. Um serviço novo leva um semestre até o primeiro contrato assinado. Uma mudança de posicionamento, de público ou de canal de entrada leva mais tempo ainda. Se o escritório quer que 2027 seja diferente de 2026, o intervalo entre setembro e novembro é a janela em que essas alavancas ainda respondem a tempo.
Orçamento anual não é adivinhação. Ninguém precisa acertar o faturamento de agosto do ano que vem. O orçamento é uma decisão registrada em número: quanto o escritório pretende receber, quanto pretende gastar, quanto quer sobrar e o que pretende construir com essa sobra. A função dele não é prever o futuro, é criar uma referência contra a qual o mês real será comparado. Sem essa referência, todo mês parece aceitável. Faturou 70 mil, tudo bem. Faturou 95 mil, ótimo. Sem meta, não existe mês ruim, e sem mês ruim não existe correção de rota. O escritório só descobre que o ano foi fraco quando o ano acabou.
O ponto de partida não é o desejo, é o histórico. Antes de definir qualquer meta, levante os últimos doze meses em quatro linhas: quanto entrou de fato por mês, quanto custou a estrutura fixa por mês, quanto custaram os custos diretos ligados a projeto e quanto sobrou. Se esses números não existirem organizados, o próprio levantamento já é o primeiro ganho do processo, porque quase sempre revela coisas desconfortáveis: o custo fixo cresceu 18% no ano sem que ninguém tenha decidido isso, dois meses do ano concentraram um terço da receita, a categoria de despesas soltas virou a terceira maior linha. Orçamento montado sem histórico é chute com planilha bonita.
Com o histórico na mão, a conta da receita alvo é direta. Imagine um escritório de cinco pessoas com custo fixo mensal de 62 mil reais, já incluindo salários, encargos, aluguel, software, contador e pró-labore dos sócios. São 744 mil reais por ano de estrutura. Some os custos diretos que variam com o volume de projeto, terceirizados, deslocamento e plotagem, em torno de 8% da receita. Some a carga tributária, que num escritório no Simples costuma girar perto de 10%. E defina a margem que se quer deixar na empresa, digamos 15%. A conta fica assim: a receita menos 18% de impostos e custos diretos, menos os 744 mil de estrutura, precisa sobrar 15% da receita. Resolvendo, chega-se a aproximadamente 1,11 milhão de reais no ano, cerca de 92,5 mil reais por mês. Esse é o número que o escritório precisa receber para funcionar do jeito que decidiu funcionar. Não é ambição, é aritmética.
O número anual sozinho não move ninguém, porque ninguém vende um ano. O passo seguinte é traduzir a receita alvo em contratos e em propostas. Se o ticket médio dos contratos é de 55 mil reais, 1,11 milhão significa vinte contratos novos no ano. Se a taxa de conversão das propostas é de 30%, são cerca de 67 propostas enviadas, algo perto de seis por mês. Agora a meta virou rotina: seis propostas por mês, dois contratos assinados. É isso que uma pessoa consegue acompanhar em uma reunião de segunda-feira. E é aqui que aparece a checagem mais importante do orçamento, aquela que quase sempre é pulada: o escritório tem capacidade de entregar vinte projetos no ano com cinco pessoas? Se a resposta for não, o orçamento está errado ou a estrutura precisa mudar. Meta de receita que ignora capacidade de entrega não é meta, é promessa de atraso.
Falta distribuir o número pelos meses, e distribuir por doze avos é o erro mais comum. Escritório de arquitetura tem sazonalidade conhecida. Dezembro e janeiro concentram férias de cliente, obra parada e decisão adiada. Fevereiro costuma ser o mês em que o ano realmente começa. Julho tem uma queda menor, mas tem. Se o histórico mostra que janeiro entrega metade de um mês normal, o orçamento precisa mostrar isso também, senão a comparação de janeiro vai gerar um pânico desnecessário e a de março, um otimismo falso. Distribuir a meta com o formato real do ano permite também uma coisa prática: saber com antecedência quais são os meses de caixa apertado e provisionar para eles enquanto os meses fortes ainda estão acontecendo.
O orçamento também precisa de uma linha que raramente aparece: investimento. Se sobra margem e ela apenas se acumula sem destino, ela vai ser consumida por decisões de ocasião ao longo do ano. Definir antes é melhor. Quanto será destinado a contratar uma pessoa nova, a trocar uma ferramenta, a produzir conteúdo, a fazer um curso da equipe, a montar reserva de caixa. Não precisa ser muito. Precisa ser decidido. Um escritório que reserva 5% da receita para investimento e escolhe onde aplicar chega em dezembro com algo construído. O que não reserva chega em dezembro tendo pago boletos, o que também é um destino, só não é uma escolha.
Por último, o orçamento precisa de revisão trimestral, ou vira enfeite. A cada três meses, sente com o número na mesa e responda três perguntas: a receita está dentro da faixa prevista, o custo fixo está onde deveria estar e o que aconteceu de diferente do que se imaginou. Ajustar a meta no meio do ano não é fracasso, é gestão. O orçamento não existe para o escritório provar que acertou a previsão. Existe para que, em maio, alguém perceba que o ano está 20% abaixo do planejado enquanto ainda há sete meses para reagir. Montar isso em setembro custa duas tardes. A alternativa é começar janeiro do jeito de sempre, esperando que o ano se resolva sozinho, e descobrir em dezembro que ele não se resolveu.
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